De vez em quando, o Instagram me pega desprevenido. Aparece uma postagem sobre como a infância dos filhos passa rápido, e eu fico ali, pensando em você. Ultimamente, nem preciso ver muita coisa. Lembro de uma conversa nossa e já é suficiente.

Dia desses, Mileninha, você disse que não queria mais ficar no meu colo porque estava grandona e eu já não lhe aguentava. Para provar, mostrou o pé: — Olha o tamanho do meu pé, pai!

Respondi sem pensar: — Você pode ter o tamanho que for, o peso que for, mas eu vou conseguir segurar.

Falei com uma certeza que nem sei se meus braços vão acompanhar. Mas o assunto ficou comigo por alguns dias. Uma hora vai ser a última vez que vou pegar você no colo. E provavelmente eu não vou saber. Vou colocar você no chão e continuar fazendo o que estava fazendo, sem perceber que aquele costume nosso acabou ali.

Uma das postagens que vi falava dessas despedidas. Dizia que, na paternidade, elas acontecem muitas vezes sem que a gente perceba. Achei triste, mas entendi. Você aprende uma coisa, deixa de precisar de ajuda em outra, muda um jeito de falar. Eu fico contente, conto a novidade, acho graça. Só depois percebo que sinto falta de como era antes.

Em tempo de eleição, isso mexe ainda mais comigo. O trabalho ocupa praticamente o dia inteiro, e meu tempo com você diminui bastante. Sinto falta de ficar mais por perto, de conversar sem pressa, de acompanhar essas novidades que parecem surgir todos os dias. Quando vejo uma postagem dessas, penso também no tanto dessa fase que estou deixando de acompanhar.

É difícil admitir isso, filha. Eu gosto do meu trabalho, tenho responsabilidades, mas sinto falta de você. Queria conseguir trabalhar sem que o nosso convívio diminuísse tanto. Aí você me mostra o tamanho do pé, toda orgulhosa, e eu fico pensando em quanto você já cresceu enquanto meus dias andam tão ocupados.

Você está prestes a completar três anos. Tem tanta coisa mudando que às vezes eu mal me acostumo e você já está diferente de novo. Quero ver você crescer. Fico feliz de verdade. Só que também dá uma tristeza saber que algumas coisas estão passando e eu não consigo guardar tudo.

Dessa conversa, pelo menos, quero lembrar: você mostrando o pé, convencida de que estava grande demais, e eu garantindo que ainda aguentava. Ainda aguento, Mileninha. Se você quiser colo, pode pedir.

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