Pra Nunca Esquecer

Pra Nunca Esquecer, relatos de pai sobre os dias que ficam
3 dias guardadosMilena: calculando
Sala de casa
Luz de fim de tarde entrando em uma sala

Eu coloquei uma música qualquer para arrumar a sala e, de repente, a sala é que me arrumou. Ela começou a dançar no meio dos brinquedos, com um passo que não queria chegar a lugar nenhum.

Fiquei olhando e quase tive vontade de filmar. Mas alguns dias pedem uma câmera desligada. Não por desprezo ao registro, mas porque o corpo inteiro precisa estar presente para merecer a lembrança.

Quando a música acabou, ela bateu palma para ninguém. Talvez para o som. Talvez para si mesma. Talvez para aquele pedaço de vida que tinha acabado de passar por nós sem pedir explicação.

Praça do bairro
Caminho arborizado em uma praça

O banco era só um banco até ela subir nele com as duas mãos abertas, como quem escala uma montanha. Sentei ao lado e deixei o passeio perder velocidade.

Ela chamou a árvore maior de "vovô árvore". Eu ri, mas por dentro anotei com cuidado. Tem palavras que parecem invenção e, no entanto, explicam melhor o mundo do que as palavras certas.

Não aconteceu quase nada. Um cachorro passou. Uma bicicleta passou. Uma senhora carregando pão passou. Ainda assim, quando voltamos para casa, eu tive a sensação de que a tarde tinha feito questão de ficar conosco.

Janela da sala
Janela com luz suave em um dia de chuva

A chuva começou sem pressa, como se tivesse pedido licença para entrar no dia. Eu estava pensando em mensagens, contas, almoço, aquela lista infinita de coisas pequenas que fingem ser urgentes.

Ela apontou para a janela e disse "plim". Não para uma gota só. Para todas. Cada gota era uma novidade inteira, e eu fiquei com vergonha de já ter visto tanta chuva sem realmente olhar.

Guardei esse dia porque ele me lembrou que ser pai também é reaprender o tamanho das coisas. Uma janela pode ser cinema. Uma gota pode ser personagem. Uma manhã cinza pode ficar acesa por dentro.