Pra Nunca
Esquecer

Relatos de um pai sobre os dias que ficam.

Milena encostada na porta, com a mão no rosto

A Milena tem

–anos–meses–dias

–dias para os –

Dias guardados

17

desde fev de 2024

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O aniversário que eu esperei

George carrega Milena nos ombros em uma feira noturna, sob a frase “pra nunca esquecer”.

Hoje, 20 de outubro, você faz três anos, Mileninha. Acho que é a primeira vez que você entende mesmo o seu aniversário. Você percebe que o dia é seu, entende melhor o que está acontecendo e consegue aproveitar sabendo por que estamos comemorando. Fiquei pensando nisso enquanto esperava a data chegar.

Eu não gosto do meu aniversário. Mas, com o seu, me vi cheio de expectativa. Desde o presente que escolhi, imaginando se você ia gostar, até a curiosidade de saber como ia se sentir hoje. Eu queria ver a sua reação. Queria acompanhar você descobrindo o que é fazer aniversário.

E tinha a música. Faço uma pra você todos os anos, mas a deste ano foi a mais especial pra mim. Tive um cuidado que ainda não tinha tido com as outras. Mexi, revi, achei que podia melhorar mais um pouco. Fiquei perfeccionista como nunca. Em alguns momentos, até eu já estava cansado das minhas exigências, mas continuava querendo acertar.

A letra fala de você me puxando pela mão pra mostrar alguma coisa, de querer fazer sozinha o que antes me pedia. São coisas que eu quero guardar de você pequena. Só que, escrevendo, também fui pensando em quando você crescer. Nas histórias que vai ter pra contar, nas vezes em que ainda vai querer colo. Eu gosto de imaginar que a gente vai continuar tendo essas conversas.

Talvez você ainda demore a entender tudo o que eu quis dizer na música. Tem coisa ali que eu escrevi pensando em você maior, ouvindo de novo. Por enquanto, você está fazendo três anos, e eu estou aqui querendo saber se gostou do presente, se está aproveitando o dia, se está feliz. Foi pensando nisso que esperei pelo seu aniversário.

Quero guardar também essa parte, filha: antes de hoje chegar, seu pai já estava todo envolvido. Escolhendo seu presente, implicando com os detalhes da música e imaginando como seria. Eu, que nunca faço muita questão do meu aniversário, fiz uma questão danada do seu.

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Olha o tamanho do meu pé, pai

Milena sorrindo, com as mãos na cintura, vestido jeans e tênis com detalhes cor-de-rosa.

De vez em quando, o Instagram me pega desprevenido. Aparece uma postagem sobre como a infância dos filhos passa rápido, e eu fico ali, pensando em você. Ultimamente, nem preciso ver muita coisa. Lembro de uma conversa nossa e já é suficiente.

Dia desses, Mileninha, você disse que não queria mais ficar no meu colo porque estava grandona e eu já não lhe aguentava. Para provar, mostrou o pé: — Olha o tamanho do meu pé, pai!

Respondi sem pensar: — Você pode ter o tamanho que for, o peso que for, mas eu vou conseguir segurar.

Falei com uma certeza que nem sei se meus braços vão acompanhar. Mas o assunto ficou comigo por alguns dias. Uma hora vai ser a última vez que vou pegar você no colo. E provavelmente eu não vou saber. Vou colocar você no chão e continuar fazendo o que estava fazendo, sem perceber que aquele costume nosso acabou ali.

Uma das postagens que vi falava dessas despedidas. Dizia que, na paternidade, elas acontecem muitas vezes sem que a gente perceba. Achei triste, mas entendi. Você aprende uma coisa, deixa de precisar de ajuda em outra, muda um jeito de falar. Eu fico contente, conto a novidade, acho graça. Só depois percebo que sinto falta de como era antes.

Em tempo de eleição, isso mexe ainda mais comigo. O trabalho ocupa praticamente o dia inteiro, e meu tempo com você diminui bastante. Sinto falta de ficar mais por perto, de conversar sem pressa, de acompanhar essas novidades que parecem surgir todos os dias. Quando vejo uma postagem dessas, penso também no tanto dessa fase que estou deixando de acompanhar.

É difícil admitir isso, filha. Eu gosto do meu trabalho, tenho responsabilidades, mas sinto falta de você. Queria conseguir trabalhar sem que o nosso convívio diminuísse tanto. Aí você me mostra o tamanho do pé, toda orgulhosa, e eu fico pensando em quanto você já cresceu enquanto meus dias andam tão ocupados.

Você está prestes a completar três anos. Tem tanta coisa mudando que às vezes eu mal me acostumo e você já está diferente de novo. Quero ver você crescer. Fico feliz de verdade. Só que também dá uma tristeza saber que algumas coisas estão passando e eu não consigo guardar tudo.

Dessa conversa, pelo menos, quero lembrar: você mostrando o pé, convencida de que estava grande demais, e eu garantindo que ainda aguentava. Ainda aguento, Mileninha. Se você quiser colo, pode pedir.

área externa de casa1 min de leitura

O cavalinho estacionado

cavalinho de brinquedo de plástico colorido parado no canto de uma área externa com rede ao fundo

Mileninha, aqui em casa tem uma área externa que era para ser descanso.

Tem rede, TV, som e, quase sempre, algum resto de trabalho que acaba indo parar por lá também.

Por vezes, você aparece.

A gente canta, dança, e você me serve seu cardápio enorme de comidinhas que só existem na sua cozinha imaginária. Tem também o seu cavalinho, aquele que você sobe e fica pulando por um tempão, como se cansar ainda não existisse no seu mundo.

Outro dia percebi que ele já virou parte do cenário. Fica sempre lá, parado, como um morador da área.

Como sei que é um dos brinquedos que você mais gosta, perguntei se queria que eu levasse para dentro de casa. Você respondeu na hora: era para deixar lá.

Estacionado.

E ele ficou.

Depois eu entendi. Pai às vezes demora um pouco para perceber as coisas.

Talvez aquele cavalinho ali seja uma forma sua de ficar comigo mesmo quando você não está. Um pedaço da sua bagunça marcando presença no lugar onde eu passo boa parte dos meus dias.

Seu cavalinho fica lá.

E, de um jeito pequeno e muito seu, você também.

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Como se fosse a primeira vez

pai e filha sentados no chão da sala ao amanhecer, ele com olheiras e ela sorrindo enquanto segura um brinquedo

Filha, desde que você nasceu, ouviu muito “eu te amo” por aqui. De mim, da sua mãe, da casa inteira. Talvez por isso, amar tenha virado uma coisa fácil pra você. Você sente e fala. Sem ensaio, sem rodeio, sem se preocupar muito com o coração dos adultos.

E você ama com tanta intensidade que, às vezes, parece não conseguir dividir o amor.

Ora está comigo, naquele xodó, grudada como se eu fosse seu lugar preferido no mundo. Aí sua mãe aparece e você solta, com a maior naturalidade:

“Eu não te amo. Só amo meu pai.”

Só que muitas vezes quem recebe a negativa sou eu.

No começo, doía. Confesso.

O início do seu dia quase sempre é comigo. Nessas madrugadas de seis e pouco da manhã em que você acorda pronta para viver, e eu acordo tentando entender onde estou. Porque, por mais que a gente tivesse terminado a noite anterior em grude total, algumas vezes, no dia seguinte parecia que você tinha esquecido tudo. E o nosso primeiro contato era doloroso pra mim. Me olhava séria e me arrematava:

“Não quero você. Quero minha mãe.”

Pronto.

Lá ia eu começar meu processo de conquista diário.

Chegava devagar. Fazia uma graça. Oferecia colo sem forçar. Esperava você normalizar a minha presença e lembrar que eu também fazia parte da sua turma.

Isso me lembrava o filme Como se fosse a primeira vez. Não pela falta de memória, claro. Mas por essa missão diária de conquistar de novo o mesmo amor.

E, algumas vezes, eu me igualava aos seus dois anos e soltava:

“Pois eu que não amo mais você.”

Que tolice, filha.

Ainda bem que pai também cresce. Só cresce mais devagar.

Hoje, você ainda pergunta por sua mãe quando acorda. Mas já olha melhor para esse pai aqui, meio amassado de sono, acordado e operante mesmo com poucas horas dormidas.

E isso, pra mim, já é uma grande conquista.

A conquista das seis da manhã.

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O certo é “te procurei”, filha

Milena, tem umas palavras suas que eu sei que um dia vão embora. E é justamente por isso que eu fico tentando guardar.

Você canta toda provocativa: “Não era sapo, nem perereca, era o papai só de sueca”, e eu acho melhor nem corrigir. A música ficou mais sua assim. E, sinceramente, “cueca” já existe em todo canto. “Sueca” só existe na sua boca.

No esconde-esconde é a mesma coisa. Você me encontra e não diz “te achei”. Diz “te procurei”. Como se o mais importante não fosse o fim da brincadeira, mas o caminho até me encontrar.

Outro dia, pedi para você se aquietar. Você olhou para mim e respondeu: “Tô quietada, pai.” Pronto. Eu fiquei sem argumento. Como é que a gente briga com uma menina quietada?

A parte perigosa é que você está aprendendo. Outro dia me achou na brincadeira e disse, toda correta: “Te achei, pai.” Eu deveria ter comemorado. Mas corrigi na hora: “É te procurei, filha.”

O português que me desculpe.

Aqui em casa, por enquanto, eu prefiro o seu.