Filha, desde que você nasceu, ouviu muito “eu te amo” por aqui. De mim, da sua mãe, da casa inteira. Talvez por isso, amar tenha virado uma coisa fácil pra você. Você sente e fala. Sem ensaio, sem rodeio, sem se preocupar muito com o coração dos adultos.

E você ama com tanta intensidade que, às vezes, parece não conseguir dividir o amor.

Ora está comigo, naquele xodó, grudada como se eu fosse seu lugar preferido no mundo. Aí sua mãe aparece e você solta, com a maior naturalidade:

“Eu não te amo. Só amo meu pai.”

Só que muitas vezes quem recebe a negativa sou eu.

No começo, doía. Confesso.

O início do seu dia quase sempre é comigo. Nessas madrugadas de seis e pouco da manhã em que você acorda pronta para viver, e eu acordo tentando entender onde estou. Porque, por mais que a gente tivesse terminado a noite anterior em grude total, algumas vezes, no dia seguinte parecia que você tinha esquecido tudo. E o nosso primeiro contato era doloroso pra mim. Me olhava séria e me arrematava:

“Não quero você. Quero minha mãe.”

Pronto.

Lá ia eu começar meu processo de conquista diário.

Chegava devagar. Fazia uma graça. Oferecia colo sem forçar. Esperava você normalizar a minha presença e lembrar que eu também fazia parte da sua turma.

Isso me lembrava o filme Como se fosse a primeira vez. Não pela falta de memória, claro. Mas por essa missão diária de conquistar de novo o mesmo amor.

E, algumas vezes, eu me igualava aos seus dois anos e soltava:

“Pois eu que não amo mais você.”

Que tolice, filha.

Ainda bem que pai também cresce. Só cresce mais devagar.

Hoje, você ainda pergunta por sua mãe quando acorda. Mas já olha melhor para esse pai aqui, meio amassado de sono, acordado e operante mesmo com poucas horas dormidas.

E isso, pra mim, já é uma grande conquista.

A conquista das seis da manhã.

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Carmolina

Maior declaração de amor e cuidado .